Desde a implementação do regime de metas de inflação em 1999, o Brasil viu o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ultrapassar o limite máximo da meta em oito ocasiões. O último episódio ocorreu no ano anterior, conforme dados recentemente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No encerramento do último ano, o IPCA teve uma variação de 4,83%, enquanto a meta estabelecida pelo governo era de 3%, com uma tolerância de 1,5 ponto percentual para ajustes, resultando em um intervalo que varia de 3% a 4,5%.
O Conselho Monetário Nacional (CMN), composto por ministros da Fazenda, do Planejamento e pelo presidente do Banco Central (BC), é o responsável por definir esta meta. O controle da inflação é uma tarefa atribuída ao Comitê de Política Monetária (Copom), que utiliza a taxa Selic como um dos principais instrumentos para exercer a política monetária.
Efeito dos juros
Uma Selic alta encarece os empréstimos, tanto para indivíduos quanto para empresas, atuando como um mecanismo de contenção da atividade econômica e, consequentemente, do aumento dos preços. No entanto, essa estratégia pode restringir investimentos e a criação de empregos.
Atualmente, a Selic está fixada em 12,25% ao ano, com um recente aumento de 1 ponto percentual em dezembro. O Copom já sinalizou a possibilidade de mais elevações nas próximas reuniões.
Fatores que impactam a inflação
A inflação superior à meta em 2024 é atribuída a uma combinação de eventos climáticos, a desvalorização do real frente ao dólar e o aumento nos preços das carnes. O BC afirma que o regime de metas de inflação visa assegurar a estabilidade de preços, contribuindo para que famílias, empresas e o governo possam planejar melhor suas atividades.
De acordo com a autoridade monetária, uma meta de inflação aponta não apenas um teto, mas também um limite inferior, evitando que a inflação caia excessivamente, o que poderia desencorajar o consumo e impactar negativamente o crescimento econômico e a geração de empregos.
Carta aberta
Quando a meta de inflação é ultrapassada, o presidente do BC é obrigado a enviar uma carta ao ministro da Fazenda, detalhando as razões do descumprimento e as medidas planejadas para restaurar a estabilidade de preços. No último comunicado, o BC destacou que fatores como a alta do dólar e das commodities contribuíram significativamente para o aumento da inflação.
Analisando os últimos anos, além de 2024, outros períodos em que o Brasil se afastou da meta incluem 2001, 2002, 2003, 2015, 2017, 2021 e 2022. É relevante notar que 2017 foi o único ano em que a inflação não apenas ultrapassou a meta, mas também ficou abaixo do piso estabelecido, com o IPCA terminando em 2,95%. Em contrapartida, 2002 viu a inflação atingir 12,53%, o maior índice desde a adoção do regime.
Mudanças nas metas de inflação
Para 2025, uma nova resolução do CMN estipula que a meta de inflação será avaliada ao longo do tempo, seguindo um modelo de “meta contínua”. Dessa forma, a avaliação será feita considerando um período de doze meses anteriores, permitindo uma análise mais gradual das variações da inflação.
Em 2024, o acumulado do IPCA chegou a 3,69% em abril, mas alcançou 4,87% em novembro, antes de fechar o ano em 4,83%. Sob o novo critério, o BC estaria diante de três meses consecutivos de inflação acima do limite, mas não precisaria enviar uma carta ao CMN neste momento.






