20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

“Coringa”​ e a teoria do Coringaverso

Depois de ver Coringa no cinema, muitas pessoas ficaram incomodadas com algumas situações. A que mais me inquietou foi a seguinte: como esse cara vai um dia dar trabalho pro Batman? Ele não é um gênio do crime, não tem conhecimento para criar um gás do riso, não é nem mesmo um lutador ágil como o Coringa das HQs.

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Após muita reflexão, a solução que encontrei foi: ele NÃO é o Coringa que costumamos ver. Mais que isso: não existe um Coringa, mas vários. Os quadrinhos já deram algumas pistas nesse sentido e o filme corrobora essa interpretação.

1.      No início do filme, vemos que Arthur fantasia uma visita ao auditório do seu apresentador preferido, Murray Franklin. Nela, o apresentador vivido por Roberto De Niro diz que vê algo especial em Arthur e que gostaria de ter um filho como ele. No final do filme, descobrimos que o relacionamento do Arthur com sua vizinha foi totalmente imaginado por ele.

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2.      Essas duas sequências, que são claramente delírios, abrem a possibilidade de que outras cenas também se passem apenas na mente de Arthur. Talvez a maior parte do filme seja ele imaginando coisas que gostaria de fazer, mas não tem coragem. Uma forte candidata é a cena em que a multidão, com máscaras de palhaço, o acolhe como um herói.

3.    Com base nisso, talvez a conversa final com a psicóloga, já no Hospital Arkham, seja ele contando a história como ele imaginou. É nessa cena, aliás, que ele dá a única risada sincera de todo o filme, antes de declarar que a psicóloga “não entenderia a piada”.

4.      No filme, Bruce Wayne tem 8 anos e o Coringa tem perto de 40, o que inviabiliza as lutas entre eles no futuro. Além disso, o Coringa inimigo do Batman é um adversário excepcional. Na maioria das versões, é químico, especialista em explosivos, gênio criminoso, estrategista… características muito além das demonstradas por Arthur Fleck, que não aguentaria um minuto lutando contra o Batman.

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5.      Agora, o que eu chamo de Teoria do Coringaverso: e se existirem vários Coringas? Nesse caso, o personagem seria algo mais semelhante ao V, de V de Vingança: uma ideia representada por múltiplas pessoas. A cena das pessoas com a máscara de Guy Fawkes em V de Vingança parece uma clara inspiração para a cena da multidão com máscaras de palhaço em Coringa.

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6.      Os quadrinhos já deram algumas pistas nesse sentido: recentemente, Batman descobriu que existem 3 Coringas; além disso, o nome real do vilão nas HQs jamais foi definido (talvez indicando que ele não tem nome, porque é um coletivo?).

7.      Outra parte do mito do Batman que faz sentido à luz dessa teoria é o filme de 1989, em que o Coringa (Jack Napier) mata Thomas e Martha Wayne. No filme de 2019, UM Coringa faz o mesmo, reforçando a possibilidade de o Coringa ser mais uma ideia do que uma pessoa.

8      Dessa forma, a história de Fleck poderia ser não a origem do personagem Coringa, mas sim a inspiração da ideia Coringa, seguida depois por outros indivíduos, desde comediantes fracassados como o protagonista de A Piada Mortal até gângsteres como o Coringa do Heath Ledger. Isso também explicaria por que Batman aparentemente mata o Coringa no final de A Piada Mortal, mas o palhaço volta mesmo assim.

9. Mesmo que não seja essa a intenção por trás de filme de Todd Phillips, é possível ver a história como uma fábula sobre o inconsciente coletivo: Arthur não seria um homem especial em suas capacidades, mas um caso exemplar da inquietação de uma comunidade (no caso, os desfavorecidos de Gotham). Ao se tornar o Coringa, ele está representando, mais do que criando, um sentimento presente na sociedade. A partir daí, outras pessoas que possuem a mesma inquietação conseguem vê-lo como um símbolo, tomar atitudes extremas e inspirar novos imitadores. O ciclo continua enquanto houver quem se identifique com a situação.

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10. A possibilidade do Coringaverso é perturbadora porque implica a existência continuada do Coringa, independentemente das ações tomadas para tirá-lo de ação. Matar o vilão é indiferente, já que ele, assim como V ou os homens-bomba de grupos terroristas, não é um indivíduo e sim a representação humana de uma ideia. O filme nos convida a entender como essa ideia se constrói e, com isso, provoca a discussão sobre a responsabilidade da sociedade como um todo sobre a criação do supervilão. No fim, é muito mais provável produzir um Coringa do que um Batman.

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Cícero Gomes
Cícero Gomes
Sou formado em Letras na Unicamp e coleciono jogos de tabuleiro, livros, videogames e miniaturas. Gosto de diversos assuntos nerds. Atualmente trabalho como gerente de RH em uma editora da área de educação, mas também dou algumas consultorias em gamificação e storytelling e fui professor de redação por 23 anos.

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