Quando o Uçá Sai pra Namorar: Calendário da andada do caranguejo-uçá reforça a proteção ambiental e o valor social dos manguezais capixabas
Todo verão tem seus rituais. Tem gente que corre pra praia, outros pro ar condicionado, e há quem siga a lua. Nos manguezais do Espírito Santo, quem manda mesmo é o caranguejo-uçá, que sai da toca quando a maré e o coração avisam que é hora de amar. Esse momento delicado e fundamental para a natureza atende pelo nome de andada. Bonito na poesia, sério na prática. Por isso, a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama) divulgou o calendário oficial da andada de 2026, reforçando regras que misturam ciência, tradição e responsabilidade coletiva.
A andada é o período reprodutivo do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), quando machos e fêmeas deixam suas tocas para acasalar, guiados principalmente pelas fases da lua cheia e nova. Fora da toca, ficam mais expostos e, sem proteção legal, virariam presa fácil da captura predatória. Segundo estudos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de universidades federais, a retirada do caranguejo nesse período compromete diretamente a reposição da espécie e pode gerar colapsos populacionais difíceis de reverter. Ou seja, não é só romance interrompido, é futuro ameaçado.
A portaria da Seama estabelece sete períodos oficiais entre janeiro e abril de 2026, nos quais ficam proibidas a captura, o transporte, a manutenção em cativeiro e a comercialização do caranguejo-uçá. Mesmo com nota fiscal, mesmo com cadastro no RGP, mesmo com boa conversa. A lei ambiental, como o mangue, é firme e não afunda fácil.
Fora desses períodos, a captura pode ocorrer apenas dentro dos limites do próprio município onde não houver andada prevista, sendo proibido qualquer transporte intermunicipal ou interestadual. A ideia é simples e eficiente: controle, rastreabilidade e menos pressão sobre o ecossistema.
O caranguejo-uçá não é só fauna, é sustento. Em diversas regiões do Espírito Santo (Vitória, Serra, Vila Velha, Guarapari), catadores e catadoras vivem do mangue. São populações tradicionais que conhecem a lama melhor do que muito doutor conhece o corpo humano. O secretário estadual Felipe Rigoni resume bem o espírito da medida: “A preservação do caranguejo-uçá durante a andada é essencial para garantir a continuidade da espécie e o equilíbrio ecológico dos manguezais, protegendo também o modo de vida de muitas famílias”.
A Prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente [SEMMAM], lançou campanha de sensibilização focada no primeiro período de andada, entre 4 e 9 de janeiro. A ação reforça informação, intensifica a fiscalização e lembra que o caranguejo tem função ecológica crucial: ele oxigena o solo, recicla nutrientes e mantém o mangue vivo. Sem ele, o ecossistema entra em colapso e a conta chega para todo mundo, inclusive no prato.
Períodos oficiais da andada do caranguejo-uçá em 2026
- 1º Período – 04 a 09 de janeiro de 2026 (lua cheia);
- 2º Período – 19 a 24 de janeiro de 2026 (lua nova);
- 3º Período – 02 a 07 de fevereiro de 2026 (lua cheia);
- 4º Período – 18 a 23 de fevereiro de 2026 (lua nova);
- 5º Período – 04 a 09 de março de 2026 (lua cheia);
- 6º Período – 19 a 24 de março de 2026 (lua nova);
- 7º Período – 18 a 23 de abril de 2026 (lua nova).
Respeitar a andada não é abrir mão do consumo, é garantir que ele continue existindo. É entender que o tempo da natureza não segue pressa de mercado. Se o caranguejo precisa namorar em paz hoje, é pra que o mangue continue respirando amanhã. No fim das contas, proteger o caranguejo-uçá é proteger a nós mesmos. E convenhamos, amor interrompido dá azar até fora do mangue.
SERVIÇO
Proibição total de captura, transporte e comercialização
Fiscalização estadual e municipal
Denúncias em Vitória telefone 156







