Quando eu era criança, meu avô tinha um sítio. Sabe aquele lugar gostoso onde toda família se metia nos finais de semana e feriados, empilhando mala, irmãos, primos e cachorro dentro do mesmo carro? Pois é. Era lá que a família se encontrava e era só alegria.
Na Páscoa rolava caça aos ovos, a gente andava pelas estradinhas sem medo nenhum, ia ao galinheiro colher jambo, seguia o córrego fingindo ser explorador e ficava horas na piscina até sair com os dedos cheios de ondinhas. A gente saía da piscina, pendurava o biquíni no varal e, no dia seguinte, bem cedo, o vestia novamente, ainda molhado e gelado, para voltar, mais uma vez, à piscina.
Creio que praticamente toda família tem seu canto responsável por muitas memórias boas. O meu sempre foi esse sítio, e, curiosamente, uma das lembranças mais gostosas é justamente a do almoço de arroz com ovo. Não era falta de comida, não. Às vezes o almoço dos adultos demorava tanto que a gente queria mesmo era algo rápido, só pra matar a fome, dar o tempo daquela lenda da digestão (quem nunca ouviu que entrar na piscina de barriga cheia dava ruim?), e já voltar para a água com cloro.
Muitas vezes, também, a comida dos adultos parecia coisa de adulto demais. Então era fácil fazer a criançada parar de encher o saco: era só pegar um ovo, cozinhar, misturar com o arroz e mandar ver, sem muita cerimônia. E era bom demais! Um arroz bem temperadinho, ovo salgadinho, primos, risadas, biquíni pingando ainda… era só felicidade em volta do prato.
Agora, corta pra mim, no recesso do trabalho, com tédio, muitos pensamentos soltos, de repente bate aquela saudade. Lembrei dos dias regados a arroz com ovo, salivei, quase lacrimejei e, claro, fiz um prato desses para mim. Comi com tanto gosto que juro, me bateu até aquela ansiedade de sair correndo para pular numa piscina que nem existe mais.
No fim das contas, percebi como é bom voltar para os dias de arroz com ovo. Para os dias simples, cheios de lembranças. É gostoso demais relembrar os antigos sabores da vida e sorrir sozinha por dentro.
Quando foi a última vez que visitou uma lembrança sua? Que fez seu prato de infância preferido? Que saiu com seus primos para dar risadas? Que ouviu uma música antiga e, por alguns instantes, voltou a ser quem você era?
Então, se puder fazer um pedido para 2026: que minha vida seja regada a arroz com ovo. Que seja simples, saborosa, cheia de amor, memórias e, principalmente, gratidão; que eu possa me lembrar de onde vim, como fui criada e das felicidades que tive. É nesse prato básico, despretensioso, que a minha infância inteira ainda mora.








Lindo e comovente texto Rafaela. Obrigado por me apresentar suas memórias e trazer as minha à tona.