Analistas avaliam a consolidação do BRICS sob a presidência da Índia, em meio a tensões geopolíticas com os Estados Unidos.
Em 2025, o bloco concretizou sua expansão, passando a contar com onze membros e criando a categoria de países-parceiros. Reuniões ministeriais, que culminaram na XVII Cúpula no Brasil, reforçaram o alinhamento político do grupo diante das declarações cada vez mais incisivas do governo norte-americano.
Internamente, China e Índia mantiveram seu protagonismo devido ao peso populacional, industrial e tecnológico, enquanto a Rússia preservou sua relevância nos setores militar e energético. A entrada de novos membros ampliou a influência do BRICS em áreas estratégicas como petróleo, gás e segurança alimentar, aumentando seu potencial de atuação global.
Entre as iniciativas em debate, destacam-se a criação de uma bolsa de grãos — com potencial para revolucionar o comércio de commodities —, o financiamento para o desenvolvimento nuclear e o crescimento das transações comerciais em moedas locais entre os países do grupo.
Perspectivas para 2026 e o papel da Índia
Especialistas avaliam os rumos do BRICS no próximo ano. A possível adesão de novas nações e uma competição mais acirrada com os Estados Unidos estão entre os temas em pauta.
Luan Scliar, diretor executivo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Integração Cultural do BRICS+ (iBRICS+), observa que a entrada de novos membros dependerá dos critérios estabelecidos pela Índia, que assumirá a presidência rotativa em 2026. Ele nota que cada integrante tem interesse em ver nações vizinhas no bloco — como a Rússia, com a Sérvia, e o Brasil, com a Argentina.
Scliar ressalta que Índia e Rússia estão entre os mais empenhados na institucionalização do BRICS, buscando uma estrutura com maior solidez jurídica. No entanto, lembra que os acordos do grupo não são coercitivos, ou seja, não criam obrigações legais para os participantes.
Apesar de identificar sinais de institucionalização — como a participação de um centro de estudos ligado ao Exército indiano na cúpula —, Scliar é cauteloso ao prever mudanças radicais sob a gestão da Índia. Para ele, apenas o exercício da presidência mostrará até que ponto esse interesse se traduzirá em avanços concretos. Para a Índia, liderar o BRICS representa uma “janela para o mundo”, uma chance de estender sua influência além da Ásia e da Eurásia.
Dinamismo geopolítico e desafios internos
Henrique Domingues, fundador do Fórum Internacional dos Municípios BRICS e secretário nacional de Políticas para a Juventude Trabalhadora da CTB, projeta que 2026 será um ano de progressos internos e possíveis ingerências externas, especialmente dos Estados Unidos na América Latina.
Domingues destaca que a presidência indiana ocorre em um momento em que a multipolaridade é um eixo central da geopolítica, e a Índia pode aproveitar essa tendência para firmar sua posição como protagonista global. “Quando se fala nos países do BRICS, geralmente se citam Rússia, China e depois o Brasil. A Índia, apesar de seu tamanho e potencial, ainda enfrenta obstáculos em seu desenvolvimento social”, explica.
“A Índia ainda tem carências sociais que não acompanham a velocidade do seu crescimento econômico. As desigualdades são gritantes e acabam se tornando um empecilho, no imaginário popular, para que o país se consolide como um ator de influência global, como Rússia, China e Brasil — especialmente agora sob a presidência de Lula.”
O secretário nacional avalia que a Índia provavelmente concentrará esforços no avanço tecnológico do bloco e no fortalecimento de acordos de cooperação, principalmente em governança e inteligência artificial. “Outros temas recorrentes são a segurança global, o combate ao terrorismo e ao narcotráfico, setores nos quais a Índia, dadas suas particularidades regionais, também deve focar”, conclui.







