23 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Quando o hábito do café vira exagero

O aroma que invade as cozinhas pela manhã, o ritual do intervalo no trabalho, aquele impulso para despertar ou a companhia em uma conversa prolongada. O café é mais do que uma bebida para muitos brasileiros; é um hábito cultural, um combustível social e, para alguns, uma necessidade diária. No entanto, uma pergunta persiste entre os apreciadores da bebida: onde traçar a linha entre o prazer benéfico e o excesso prejudicial?

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A ciência oferece respostas, mas elas não são únicas. A maioria das agências de saúde e estudos recentes converge em um consenso: para a maioria dos adultos saudáveis, uma ingestão moderada de cafeína – o componente ativo mais famoso do café – está entre 300mg e 400mg por dia. Traduzindo para o popular café coado caseiro (cada 150ml contém, em média, 80mg a 100mg de cafeína), isso equivale a aproximadamente três a quatro xícaras. É importante destacar que essa é uma média. Um expresso forte (50ml) pode conter de 60mg a 100mg, enquanto um café de filtro americano tende a ser mais suave.

A moderação nessa faixa está associada a benefícios comprovados. “Estudos epidemiológicos mostram que consumidores moderados de café têm menor risco de desenvolver doenças como Parkinson, Alzheimer, diabetes tipo 2 e algumas doenças hepáticas”, explica a nutricionista Dra. Ana Lúcia Mendes. “Os antioxidantes presentes no grão têm um efeito protetor significativo.”

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Contudo, cruzar a fronteira do excesso – algo que varia drasticamente de pessoa para pessoa – pode acionar um alarme no organismo. Sintomas como ansiedade, nervosismo, agitação, insônia, taquicardia, dor de cabeça, irritabilidade e desconforto gástrico são sinais claros de que o limite pessoal foi ultrapassado. “O corpo dá sinais. Quem precisa de cinco ou seis xícaras só para se sentir ‘normal’ durante o dia pode estar desenvolvendo uma tolerância alta e mascarando uma privação crônica de sono ou alto estresse”, alerta Dra. Ana Lúcia.

A chave, portanto, não está apenas em contar xícaras, mas em praticar o autoconhecimento. Fatores como genética (a velocidade com que o fígado metaboliza a cafeína), peso corporal, uso de medicamentos, gestação e sensibilidade individual são cruciais. Uma pessoa pode sentir tremores com duas xícaras, enquanto outra parece inalterada com quatro.

Além da quantidade, o “quando” também importa. Consumir café muito tarde, especialmente após as 16h, pode interferir significativamente na qualidade do sono em indivíduos sensíveis, criando um ciclo vicioso de cansaço e necessidade de mais café no dia seguinte.

Para aqueles que desejam desfrutar do café com equilíbrio, especialistas sugerem: 1. Conheça seu limite – preste atenção aos sinais do seu corpo; 2. Hidrate-se – para cada xícara de café, beba um copo de água, pois a cafeína tem efeito diurético; 3. Evite o consumo em jejum absoluto, para reduzir a acidez estomacal; 4. Respeite seu sono – estabeleça um “horário limite” para a última dose.

Em última análise, o café, como muitos dos prazeres da vida, pede consciência. Ele pode ser um grande aliado do bem-estar e da produtividade quando consumido com atenção, mas um antagonista da saúde quando o uso se transforma em abuso. A resposta para “quantas xícaras são demais” está, literalmente, na ponta da língua de cada um – é só saber escutar o que o corpo sussurra, antes que ele precise gritar.

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