30 de janeiro de 2026
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O diagnóstico de autismo e TDAH nos filhos leva os pais a se reconhecerem como neurodivergentes

O aumento no número de crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) tem gerado um cenário comum: adultos que se identificam com os traços de seus filhos e, por isso, também recebem um diagnóstico tardiamente.

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Muitas vezes, a investigação clínica da criança revela um padrão familiar. Dificuldades escolares, problemas em relacionamentos, cansaço extremo ou a sensação persistente de não se encaixar deixam de ser vistos como episódios isolados e passam a mostrar uma tendência consistente – algo que antes não era observado com atenção pelo adulto.

Como explica André Luiz Ferreira, psicólogo especializado em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e doutor pela UFSCar, esse fenômeno pode ser compreendido por dois motivos principais. O primeiro é a maior disponibilidade de conhecimento e de procedimentos avaliativos sobre autismo e TDAH, que hoje são mais acessíveis. Ele ressalta, porém, que a confirmação permanece essencialmente clínica, baseada na análise de comportamentos repetidos em diferentes contextos e ao longo da vida.

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O segundo motivo está no envolvimento direto dos familiares no processo de avaliação dos filhos. “Ao descreverem o comportamento das crianças, os pais acabam refletindo sobre si mesmos e percebendo pontos em comum”, esclarece o especialista.

Emoções após a identificação na vida adulta

Os transtornos do neurodesenvolvimento têm origem genética – ou seja, são herdados – e também são influenciados pelo ambiente. Por isso, é comum que vários membros de uma mesma família manifestem traços semelhantes. Assim, não é raro que o diagnóstico na infância leve ao reconhecimento da condição em adultos.

Esse caminho costuma vir acompanhado de diversas reações emocionais. Pode haver um alívio ao entender desafios antigos, mas também o peso de reviver experiências marcadas por cobranças, falta de compreensão ou tentativas exaustivas de se adequar. “Uma resposta frequente é a sensação de alívio, quase como uma libertação da culpa”, comenta André.

Em alguns casos, também surge um sentimento de responsabilidade por o filho ter a mesma condição – uma reação natural, que deve ser acolhida e trabalhada em terapia, já que não há culpados nessa história. Ao mesmo tempo, aparecem questões práticas sobre terapias, acompanhamento e suporte, principalmente quando o adulto precisa gerenciar seu próprio diagnóstico e o da criança simultaneamente. Para outros, a reação pode ser de indiferença, quando o diagnóstico apenas nomeia comportamentos já administrados no cotidiano.

Camila Marin, pedagoga especialista em ABA pela UFSCar, observa que, antigamente, a busca por avaliação ocorria quase somente em situações consideradas mais graves. “Hoje, o acesso à informação e a parâmetros mais definidos ajudam a reduzir o preconceito e a associação de valores morais a certas formas de funcionamento”, afirma. Para ela, a visão do autismo como um espectro amplo e do TDAH em diferentes graus de suporte aumentou o reconhecimento de perfis que antes eram ignorados.

Reavaliar a trajetória pessoal

Para muitos pais, o diagnóstico na vida adulta vai além de uma informação médica, iniciando uma revisão da própria história. Experiências antes vistas como fracassos pessoais ou falta de esforço passam a ser interpretadas por uma nova perspectiva.

Camila destaca que esses adultos tiveram que criar, ao longo dos anos, mecanismos de adaptação que pessoas neurotípicas (sem alterações no neurodesenvolvimento) não precisaram desenvolver. “Esse esforço constante impacta diretamente a autoestima e a forma como a pessoa constrói sua autoimagem”, explica. Com o tempo, pode levar a um esgotamento emocional e a uma sensação crônica de não pertencimento.

Por que tantas identificações só na fase adulta?

O fato de muitas pessoas chegarem à idade adulta sem diagnóstico mostra como os transtornos do neurodesenvolvimento foram compreendidos por anos. Durante muito tempo, o reconhecimento dessas condições limitou-se a manifestações mais evidentes, excluindo quem era rotulado como “reservado”, “agitado”, “complicado” ou “distraído”, por exemplo.

André lembra que materiais técnicos, como a Classificação Internacional de Doenças (CID) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), antes eram de uso restrito a profissionais da saúde. Além disso, a própria concepção do diagnóstico se transformou. “Ele deixou de ser um fim em si mesmo e se tornou um ponto de partida para planejar formas de cuidado”, diz.

Camila acrescenta que muitos desses comportamentos eram vistos como falhas de caráter ou erros na criação, o que resultou em infâncias e adolescências marcadas por culpa e cobranças excessivas. Essas marcas só são entendidas anos depois, quando características similares aparecem nos filhos.

Consequências para a família e a carreira

O diagnóstico também afeta a dinâmica familiar. Na visão de André, entender que pais e filhos compartilham formas parecidas de funcionamento reduz interpretações punitivas no dia a dia. “As dificuldades deixam de ser vistas como decisões intencionais da criança e passam a ser compreendidas dentro de um contexto mais amplo”, detalha.

Para Camila, essa compreensão pode melhorar a qualidade de vida de toda a família. “Reconhecer similaridades promove a empatia e ajuda os pais a darem exemplos mais eficazes”, afirma. A consciência da neurodivergência de um ou ambos os cuidadores ainda pode levar a ajustes no relacionamento do casal, com um diálogo mais claro e menos desentendimentos.

No trabalho, muitos desses adultos relatam uma história de cansaço persistente. “A necessidade de atender a expectativas neurotípicas mantém a pessoa em estado de alerta constante. Gasta-se energia para viver e para demonstrar que se está vivendo como o esperado”, explica a especialista. Esse esgotamento pode levar à síndrome de burnout, a incertezas profissionais e ao medo de não conseguir recursos financeiros para cuidar de si e da criança, fazendo com que muitos pais repensem suas carreiras após o diagnóstico.

Uma perspectiva em evolução

Camila enfatiza que ainda existem barreiras estruturais significativas, principalmente no acesso a serviços de saúde, educação e oportunidades de emprego.

Na avaliação dos especialistas, ampliar a visão sobre a neurodiversidade na vida adulta – especialmente quando ela surge no contexto familiar – não ajuda apenas os indivíduos diagnosticados, mas também contribui para relações mais conscientes e para uma sociedade mais diversa e acolhedora.

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