20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

São Benedito do Rosário dos Pretos do Centro de Vitória: a tradição modernizada

A tradição é sempre renovação. É a continuidade renovada em nome do mesmo ou do autêntico, da permanência do que nos define (identidade, histórias, tradição), que une, separa e afirma no mundo diante de outros. Não é possível estar no mundo sem elaborar ou perlaborar novos sentidos e significados  sobre nosso passado, presente e futuro, seja para produzir um sujeito histórico ou para nos  orientarmos  e agirmos  no presente, como nos  ensinaram  Julia Salazar Sotelo,  Maria Auxiliadora Schmidt,  Jörn Rüsen,  Peter Lee, Luiz Fernando Cerri e Isabel Barca.

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Geralmente, como estamos tão mergulhados na vida cotidiana, não percebemos as inovações e criatividades que agenciamos — para muitos, heresias — para se manter a passagem, ou melhor, para conseguirmos passar o bastão da continuidade e a manutenção do antigo ou tradicional, especialmente daquilo que acreditamos que sempre foi assim, pensado por muitos como intocável e quase fora da história.

Perdemos essas ilusões e obsessões memorialísticas de reter o tempo quando descobrimos que nada continua por acaso ou por naturalidade. Quase sempre essas permanências dependem de um diálogo tenso e desequilibrado com o tempo presente. Nesse contexto, sempre alguém, grupos ou lideranças precisam decidir pela continuidade ou mudança, precisam assumir a luta pelo não desaparecimento de ideias, instituições e práticas sociais, precisam se transformar, quase sempre de modo voluntário, em guardiões da memória e da história, que guardam, cuidam, organizam e valorizam os fragmentos restantes do passado.

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Isso significa que é preciso sempre reconhecer que o passado não tem valor nenhum em si mesmo, que, de fato, é no tempo presente, com suas lutas, disputas e negociações, que fabricamos e compartilhamos significados e sentidos sobre o passado, que impulsionamos justificativas e usos em torno daquele que possam garantir a continuidade daquilo que elegemos continuar, do que resolvemos esquecer e do que decidimos eternizar enquanto vivemos. Dessa maneira, cada presente tem seu passado e o passado é sempre dinâmico, vivo e aberto às questões do tempo presente.

Com isso, o que se deseja afirmar até aqui é que o amor ou a paixão ou os vínculos com um patrimônio, determinadas narrativas históricas ou com as instituições não nascem espontânea ou naturalmente, passam, e necessitam, por políticas de identidades, de pertencimentos e de cognição que busquem fazer permanecer e, até mesmo, eternizar-se. Tais políticas de memória e história podem ser individuais ou coletivas, públicas ou privadas, mas exigem narrativas e significados que ultrapassem o interesse privado ou individual que, mesmo que seja verdade, se apresentam como coletivas e públicas, como parte do interesse comunitário, numa espécie de espelho do passado ou túnel do tempo ou viagem no tempo autorizada e certificada, um verdadeiro processo de alfabetização histórica.

A Saga da Irmandade de São Benedito

É nessa cruzada histórica e social de levar para o futuro o culto de São Benedito no Centro de Vitória que se coloca a Venerável Arquiconfraria Irmandade de São Benedito do Rosário (Igreja do Rosário), com todos os esforços e dificuldades para presentificar, no tempo da aceleração, instantaneidade e descartabilidade, mais de três séculos de história.

É uma saga que envolve a dedicação, o desapego e o desprendimento diante de uma vida social que demanda uma teologia de supermercado, onde Deus é apenas um solucionador de problemas individuais e reduzido aos interesses e necessidades particulares. Nesse contexto, a fé e a devoção só podem existir como respostas imediatas e customizadas de desejo de milagre ou pela experiência individualizada da fé (a busca pela experiência significativa, a conexão individual com a totalidade, o divino e o transcendente).

Tais princípios teológicos e religiosos, tomados pela lógica de mercado, encontram-se bem distantes dos festejos de São Benedito, nos quais a teologia em celebração, que nasce das ruas e de sua diversidade, é a teologia do encontro. Nela, o exercício da fé é comunitário e, dentro do encontro entre o sagrado e o profano dessas comunidades que se inclinam ao Santo Preto, emergem não apenas soluções espirituais, mas também soluções comunitárias para as necessidades e dificuldades da vida cotidiana. Os fiéis reaprendem, no caminho de penitência pelas ruas não mais lotadas do Centro de Vitória, a força religiosa da partilha, na qual a Eucaristia é nosso sustento maior e São Benedito, com Jesus Cristo nos braços, o testemunho público: é o pão que nos faz irmãos, o pão da vida!

Legado e Desafios Atuais

São muitos rostos que hoje não vemos ao longo da procissão do Rosário até a Catedral; esses rostos que, da calçada, davam adeus aos fiéis e ao Santo protetor. Mas não podemos desistir: há uma grande pedagogia na festa de São Benedito: humildade, partilha e cuidado. É, justamente, desse gigantesco testemunho histórico que a Venerável Arquiconfraria Irmandade de São Benedito do Rosário se fez herdeira, e não podemos deixá-lo desaparecer. O São Benedito é de todos, não importa a face e o lugar: nascemos para partilhar e cuidar uns dos outros! Cuidado e partilha são a grande missão do Santo Negro.

Diante disso, é importante agradecer e reconhecer a cada um e a cada uma das irmãs e irmãos confrades, assim como a toda a diretoria, liderada pela Provedora Nelce Pizzani Rios e pelo Secretário Wallace Bonicenha, por não desistirem dessa festa e desse território dedicado a São Benedito e a seus ensinamentos teológicos e sociais.

Todos esses festejos e a devoção precisam de mais gente e sustentabilidade financeira, política, econômica e espiritual; mas isso cabe a cada um de nós, membros ou não da nobre confraria: acreditar que é possível continuar a Igreja Presépio, a Igreja de São Benedito do Rosário dos Pretos, a igreja dos humildes e simples. A igreja cujo solo carrega os corpos daqueles que foram a base da sociedade brasileira com sua cultura e trabalho: os negros e negras sequestrados em África

Dívida Histórica Capixaba

Somos uma sociedade de sequestrados. A simples passagem de São Benedito pelas ruas do Centro de Vitória-ES é a materialização pública de que esta terra capixaba tem uma dívida com a história africana e com a história do povo negro. Quem se choca, ainda, ao ver o Santo Negro pelas ruas em procissão, logo busca informações históricas entre amigos e amigas ou nas redes sociais e internet para entender o que acontece. E descobre homens pretos que aqui habitaram e chegaram de maneira forçada; que, apesar da escravidão, homens e mulheres negras se reuniam para cuidar de si e dos seus, e até mesmo se convertiam, forçados ou não, a outra fé!

É essa história que não pode ser apagada, pois é ela que pode conectar todos os festejos de São Benedito ao tempo presente e a seus desafios. Empretecer a Igreja de São Benedito é um caminho que precisa ser discutido publicamente como possibilidade para mais de duzentos anos de história das festas de São Benedito!

Em resumo, trocando em múdos tudo que foi até aqui argumentado concluímos que toda tradição é inventada, justamente dessa inventividade, criatividade e engenhosidade que ela sobrevivem e vem o tempo, como nos ensina Roy Wagner e Fredrik Barth. A cultura é lugar de produção e ação, mergulhado no chão da história e da vida política e econômica. Ou seja, lugar de atravessamento e construção de horizontes de expectativas. No caso da cultura capixaba, poderemos pensar e aprofundar essas questões enunciadas  vários acionando  pesquisadores  e pesquisadoras  dedicaram a compreendee o caledospocio cultural espirito-santense nas suas contradições, ambivalências, disputas, negociações e projetos de identidade:Rogério Medeiros, Michel Dal Col Costa, Hermógenes Lima da Fonseca, Maicon Lemos Sathler, Lucas Borges Soeiro, Walace Bonicenha, Elmo Elton, Guilherme dos Santos Neves, Cleber da Silva Maciel, João Gualberto Vasconcellos Osvaldo Martins Oliveira, Celeste Ciccerone, Isabel Cristina de Araújo Quintino, Afonso Claúdio, Fernando Antônio de Moraes Achiamé, Renato Pacheco, Lavínia Cardoso, Hauley Valim, Eliomar Carlos  Mazôco,  Maria Stella de Novaes, Leonor de Araújo Santana e muitos outras e outras.

Fragmentos do Passado

(…) duas facções religiosas e rivais, em que se dividia, no século XIX, a cidade de Vitória, na devoção a São Benedito. Os peroás, de cor azul, tiravam a denominação do nome do peixe assim chamado (…). Os caramurus, do peixe de igual nome, de cor verde (…). As duas denominações nasceram com sentido pejorativo numa alusão ao pouco valor dos dois peixes, mas acabaram assumidas com orgulho por ambos os lados. (…) a rivalidade entre peroás e caramurus, que chegou a adquirir conotação política, agitava a vida social de Vitória, empolgando os partidários das duas hostes. (…) [a rivalidade] chegou a momentos de picardia: segundo Maria Stella Novaes, as mulheres caramurus usavam chinelas de cor azul (cor dos Peroás) para pisoteá-las simbolicamente; as peroás davam o troco, calçando chinelas verdes.

Fonte da Foto: https://www.es.gov.br/Noticia/igreja-de-nossa-senhora-do-rosario-reabre-com-apoio-da-lei-federal-de-incentivo-a-cultura-por-meio-do-bandes

 

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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