20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

História da Matriz de Nossa Senhora da Vitória é um marco da cidade

Antes da atual Catedral Metropolitana de Vitória, com sua arquitetura eclética, elementos neogóticos e vitrais que impressionam visitantes e moradores, erguia-se no mesmo local, na Cidade Alta, um templo muito mais antigo: a Matriz de Nossa Senhora da Vitória. Construída entre 1550 e 1552, essa igreja serviu como núcleo político, religioso e social da Vila de Vitória por quase quatro séculos. Acompanhou transformações históricas profundas, como a transição para os períodos imperial e republicano, sendo testemunha das mudanças no cotidiano da população capixaba.

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Demolida em 1918 para dar lugar à nova Catedral, a antiga matriz exemplifica como monumentos que ajudaram a forjar a identidade coletiva foram transformados ao longo do tempo. Recordar essa trajetória é fundamental para entender de que modo a expansão da cidade, ao longo dos séculos, motivou novas configurações sociais e culturais.

Essa narrativa é apresentada por meio de fotografias e documentos preservados no Arquivo Público Municipal de Vitória. Obras bibliográficas, elaboradas em parte com base em pesquisas realizadas nesse mesmo arquivo, também foram consultadas.

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Altar-mor da antiga Igreja Nossa Senhora da Vitória.

Religiosidade na ocupação do território capixaba

A Igreja de Nossa Senhora da Vitória foi o primeiro templo e um dos mais significativos da cidade por quase 400 anos. De aspecto estético simples, ela integrava um conjunto arquitetônico religioso relevante, que incluía ainda o Colégio dos Jesuítas (atual Palácio Anchieta) e a Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia (demolida, deu lugar ao Palácio da Cultura Sônia Cabral), no Centro Histórico. Esses três monumentos manifestavam a intensa presença da fé católica na ocupação do solo capixaba.

A Matriz foi construída em um contexto de profunda conexão entre a Coroa Portuguesa e a Igreja Católica. Naquele período, o governo português financiava a construção dos templos, a manutenção dos cultos e os salários de vigários e bispos, que eram considerados funcionários públicos. Em contrapartida, ficava com os dízimos. A época da edificação da igreja coincide com a fundação da Vila de Vitória (1551) e o registro dos primeiros padres capixabas seculares, como Francisco da Luz, em 1550, e Pero dos Santos, em 1552.

Na condição de funcionários do governo, o bispo e os vigários, além das obrigações religiosas, orientavam o comportamento e as condutas da sociedade, frequentemente apontada como repleta de “vícios e pecados”. As celebrações eram frequentadas pelas autoridades locais, funcionários públicos, senhores de posses e pessoas livres, enquanto os batismos e sepultamentos eram permitidos apenas para nobres e governantes.

Posição de destaque na cidade

Em estilo colonial, com influências barrocas, a matriz foi erguida sobre uma área elevada, em posição de evidência na cidade, conforme era habitual na época. Construída com paredes de pedra, barro e cal, a antiga igreja não era imponente, mas acomodava adequadamente a população local nas missas rotineiras e em eventos importantes.

Possuía 120 palmos de comprimento por 60 palmos de largura. A altura do telhado era de 20 palmos. Sim, o palmo era a unidade de medida empregada naquele período. A conversão para metros indica uma área construída de cerca de 350 m² e aproximadamente 4,4 metros de altura.

O templo tinha um formato retangular simples e, anexa à fachada, uma torre com sino. Internamente, a ornamentação era despojada, com exceção do altar-mor, onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora da Vitória. Havia diversos altares: Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Dores, São José, Santo Antônio, São João e o da Capela do Santíssimo Sacramento. Em frente à igreja, havia uma área denominada Largo da Matriz, onde também se localizava um pequeno cemitério.

Em 1726, o vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses orçou em 10.000 cruzados a reconstrução e ampliação da matriz, que já se encontrava em mau estado de conservação. Em 29 de agosto de 1731, o rei D. João V ordenou a execução das obras, destinando 1 mil cruzados do valor dos dízimos por ano para concretizá-las. A execução só teve início em 1749 e as obras se estenderam por décadas.

Testemunha de grandes acontecimentos

Foi na Igreja Matriz que as autoridades capixabas prestaram o juramento à Constituição Portuguesa, em 1821, quando o rei Dom João VI retornou a Portugal. Em 19 de abril de 1824, Vitória presenciou o juramento à Constituição do Império, outorgada por D. Pedro, assim como todos os atos solenes da época, na antiga igreja. As cerimônias eram assistidas pelos moradores e dirigidas a integrantes da Câmara Municipal e corporações civis, eclesiásticas e militares.

Já em 1860, durante a visita de D. Pedro II à província do Espírito Santo, a igreja matriz não foi visitada, devido ao estado de decadência física em que se encontrava. Com a Proclamação da República, em 1889, ocorreu a separação entre o Estado e a Igreja Católica, e os custos com construções, manutenções, festas e procissões deixaram de ser pagos pelos cofres públicos. A situação do imóvel tornou-se ainda mais precária.

Maior e mais imponente: nasce a Catedral

Em 1895, o padre Eurípides Calmon Nogueira da Gama Pedrinha descreve a situação da igreja como “Em misero estado, desde o telhado até a sachristia tudo desconcertado, tudo lixoso e imundo”. Ele realizou campanhas para reformar o templo e também para trazer a população de volta à prática religiosa.

As ações produziram efeito e, no mesmo ano, foi criada a Diocese do Espírito Santo, nomeado o primeiro bispo, Dom João Batista Correia Nery, e a igreja recebeu o título de Catedral. A nova Catedral ainda passou por uma reforma em 1902, conduzida pelo segundo bispo do Espírito Santo, Dom Fernando de Souza Monteiro.

Em 1912, o Governo do Estado determinou a celebração de exéquias solenes na matriz pelo trigésimo dia do falecimento do Barão de Rio Branco. Como se sabe, o barão foi Ministro das Relações Exteriores e é considerado o patrono da diplomacia brasileira. Suas exéquias foram realizadas em todas as capitais brasileiras, em Lisboa e em várias capitais europeias. Na Igreja de Nossa Senhora da Vitória, segundo os jornais da época, a cerimônia foi “extraordinariamente concorrida, tendo ficado repleto o vasto templo”.

Porém, em 1917, a Diocese decidiu-se a favor da demolição da antiga matriz e da construção de um novo templo, maior e em um estilo arquitetônico considerado mais apropriado e imponente. Assim, a antiga igreja foi demolida no bispado de D. Benedito Paulo Alves de Souza (1918-1932), no dia 6 de julho de 1918. A construção da atual Catedral Metropolitana de Vitória foi iniciada, no mesmo local, em 1920.

O grupo escolar Gomes Cardim em frente da Catedral, nas exéquias do Barão do Rio Branco. 1912

Grupo escolar Gomes Cardim em frente da Catedral, nas exéquias do Barão do Rio Branco. 1912

Interior da antiga Catedral de Vitória com o catafalco do Barão do Rio Branco. 1912

Interior da antiga Catedral de Vitória com o catafalco do Barão do Rio Branco, em 1912.

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