A preocupação com o bem-estar emocional e mental já está consolidada entre a população brasileira. Para a maioria, manter a saúde não é visto como um privilégio, mas sim como uma necessidade fundamental. No entanto, transformar essa consciência em prática no dia a dia ainda é um desafio, especialmente quando entram em cena fatores como situação financeira, obrigações profissionais e a falta de horas livres.
Essa é a conclusão de uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro. O estudo, que ouviu 1,5 mil pessoas com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país, traça um panorama claro: o bem-estar é um objetivo quase universal, mas sua conquista é distribuída de forma desigual.
Bem-estar é prioridade, mas nem sempre possível
Segundo os dados, 87% dos brasileiros afirmam que o bem-estar é importante e tem ligação direta com o equilíbrio mental e emocional. Entretanto, apenas um terço (33%) consegue destinar recursos de forma constante para ações ou serviços de autocuidado.
Nas classes D e E, os obstáculos ficam ainda mais evidentes: 35% dizem aplicar recursos apenas de vez em quando, e um quarto (25%) declara ser incapaz de investir em bem-estar por falta de dinheiro. Portanto, a questão central não é a falta de vontade, mas as limitações impostas pelas circunstâncias reais da vida.
Tempo livre também é um privilégio
A análise mostra que a disponibilidade de tempo para se dedicar a si mesmo varia bastante conforme a renda. Enquanto 81% das classes A e B relatam conseguir separar momentos para o bem-estar, essa proporção cai para 66% entre as classes D e E. Metade dos brasileiros diz ter apenas uma ou duas horas por dia para focar no autocuidado. A carga excessiva de trabalho aparece como o principal fator que restringe essa disponibilidade, principalmente entre os grupos de menor poder aquisitivo, que enfrentam jornadas mais longas, deslocamentos demorados e menos flexibilidade.
Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, avalia que essa disparidade revela um problema de fundo: “O empenho pelo bem-estar existe em todas as faixas de renda. A diferença não está na intenção de se cuidar, mas na frequência com que isso é viável. Nas classes de maior renda, o cuidado se integra à rotina de forma regular. Já nas classes com menos recursos, ele acontece de maneira esporádica, não por ser menos prioritário, mas porque as limitações econômicas relegam o autocuidado aos intervalos entre outras obrigações”.
Alimentação, exercício e lazer: onde a desigualdade aparece
As disparidades mais marcantes entre os estratos sociais se manifestam justamente nas áreas mais ligadas ao bem-estar físico e emocional. O acesso a uma alimentação considerada saudável, por exemplo, chega a 69% nas classes A e B, mas cai para 50% nas classes D e E.
Um cenário parecido se repete na prática de atividades físicas: 57% entre os de maior renda, contra apenas 33% entre os de menor renda. No que diz respeito ao lazer – incluindo passeios, viagens e momentos de descanso –, ele está ao alcance de 43% das classes A e B, enquanto só 27% das classes D e E conseguem usufruir dessas atividades.
Dinheiro pesa (e muito) na saúde mental
A pesquisa também deixa clara a influência direta da situação financeira no equilíbrio emocional. Para 89% dos brasileiros, as finanças afetam o bem-estar, sendo que metade sente esse impacto de forma intensa.
As preocupações com dinheiro lideram a lista de fatores que prejudicam a saúde mental, especialmente nas classes C, D e E. Isso ajuda a explicar por que a avaliação da saúde emocional também varia conforme a renda: 72% das classes A e B consideram sua saúde mental boa, comparado a 49% nas classes D e E. Por outro lado, a percepção de saúde mental ruim ou muito ruim atinge 16% entre os mais pobres, contra apenas 5% entre os mais ricos.
Quem consegue melhorar o próprio bem-estar?
Quando perguntados sobre a evolução do bem-estar nos últimos anos, 61% dos brasileiros dizem se sentir melhor hoje do que há cinco anos. Esse percentual sobe para 69% nas classes A e B e recua para 53% nas classes D e E. A forma como essa melhoria acontece também muda de acordo com a renda. Entre os cidadãos com maior poder aquisitivo, 61% creditam a evolução principalmente aos próprios esforços. Nas classes D e E, essa taxa cai para 51%, enquanto a família, o trabalho e a religião ganham mais peso como apoios emocionais.
Trabalho: fonte de realização ou desgaste?
A relação entre trabalho e bem-estar aparece dividida. Para 38% dos brasileiros, a atividade profissional contribui positivamente para a qualidade de vida. Outros 31% afirmam que ela não interfere, enquanto 31% julgam que o impacto é negativo. Nas classes A e B, a percepção favorável sobe para 42%, indicando que condições de trabalho mais vantajosas também influenciam diretamente a saúde emocional.
Como os brasileiros cuidam da mente no dia a dia
Apesar das barreiras, o autocuidado se concretiza principalmente por meio de práticas acessíveis e incorporadas à rotina. Entre as estratégias mais citadas para preservar a saúde mental estão:
- Prática de exercícios físicos (50%)
- Lazer e hobbies (49%)
- Contato com amigos e familiares (48%)
- Alimentação equilibrada (37%)
- Meditação e práticas de relaxamento (23%)
Esses números mostram que, mesmo diante das limitações, a população busca meios viáveis para manter o equilíbrio emocional.
O que a pesquisa revela sobre o Brasil de hoje
O panorama que emerge do estudo é claro: a vontade de cuidar da saúde mental é ampla, mas o acesso ao bem-estar continua profundamente desigual. Para muitos no país, não falta conhecimento ou priorização – faltam tempo, recursos financeiros e condições estruturais para transformar o autocuidado em um hábito permanente. É a confirmação de que cuidar da saúde mental não deve ser visto apenas como uma escolha individual, mas também como um reflexo das realidades sociais em que as pessoas estão inseridas.







