20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Como lidar com metas não cumpridas sem culpar a si mesmo

Com a chegada de um novo ciclo, é natural revisitar o espaço onde registramos, com esperança, os objetivos do período que se encerra. Nesse momento, muitas vezes nos deparamos com planos não realizados, ideias adiadas e desejos que a correria do dia a dia abafou. A tendência é fazer um balanço severo de supostas falhas. Mas e se esse reencontro virasse uma chance de dialogar de forma mais sensata e gentil com você mesmo?

Continua após a publicidade

A neuropsicóloga Leninha Wagner, mestre em psicanálise, doutora em psicologia e PhD em neurociências, explica que a culpa sentida por tantas pessoas vem de um equívoco comum.

“A culpa costuma aparecer porque as pessoas confundem desejo com obrigação. Ao traçar um objetivo, ele vira uma espécie de pacto pessoal: ‘Se eu quis, eu deveria ter conseguido’”, comenta.

Continua após a publicidade

Para ela, essa lógica ignora as circunstâncias reais da vida – com seus obstáculos e mudanças inevitáveis.

“A culpa tenta sustentar a fantasia de um controle absoluto. Só que ela consome energia mental, limita nossa visão e nos prende ao que já ficou para trás.”

A fantasia da linearidade e a riqueza dos caminhos alternativos

Parte dessa insatisfação nasce de uma visão pouco realista sobre o rumo da vida. Queremos uma progressão contínua, mas a realidade se parece mais com um rio cheio de curvas.

“A vida não segue uma linha reta, mas funciona como um organismo em adaptação constante”, pondera a especialista. “Os desvios não são bloqueios no caminho; são a própria jornada se remodelando.”

O segredo, então, está em mudar o olhar. “Isso significa trocar a pergunta ‘Onde errei?’ por ‘O que esse novo caminho me pediu?’. Muitas vezes, o que parece um retrocesso é um amadurecimento silencioso. A caminhada deixa de ser um teste de eficiência e vira um processo de criar sentido”, enfatiza Leninha.

Da autocrítica que paralisa para a autocompaixão que liberta

Como, então, avaliar o período que passou de um jeito que não paralise, mas traga mais clareza e paz?

A profissional diferencia dois tipos de análise: a punitiva e a empática. “A avaliação punitiva foca no ‘eu falhei’ e busca culpados, quase sempre em nós mesmos. Ela reduz a história a um julgamento.”

Já a análise empática, que ela recomenda, “examina o panorama completo: estados emocionais, recursos disponíveis, desafios, transformações internas e externas”.

Para colocá-la em prática, é preciso adotar uma postura de interesse genuíno pela própria experiência. Perguntas como “O que estava sob meu controle naquela situação?” ou “O que eu estava tentando preservar?” levam à compreensão, não à culpa.

Reconhecendo as ‘microconquistas’ invisíveis

Antes de pensar no próximo capítulo, Leninha sugere um exercício: o “inventário do intangível”. A ideia é resgatar vitórias que não vêm com troféus, mas mostram uma evolução real. Ela aconselha listar três itens: as dificuldades que superei, os insights que ganhei sobre mim e as mudanças que coloco em prática hoje.

“Não busque feitos grandiosos. Perceba os pequenos ajustes emocionais, escolhas mais conscientes, limites estabelecidos, ajuda pedida”, orienta.

“Celebrá-los é admitir que o crescimento nem sempre faz barulho. Às vezes, ele é quieto e essencial.”

Com essa nova forma de enxergar o passado, fica mais fácil planejar um futuro mais acolhedor. Mas como definir metas que realmente funcionem?

“Um objetivo viável respeita o ritmo natural de cada um”, ressalta a neuropsicóloga. Ele precisa considerar a energia disponível, o cenário real e incluir margem para imprevistos.

“Metas saudáveis são claras, mas não opressoras. Elas guiam sem definir o valor da pessoa.”

Uma pergunta útil que ela propõe é: “Esse objetivo me incentiva a crescer ou me ameaça com punição?”. Se a resposta for a segunda, é um sinal de que algo precisa ser revisto.

Ela também destaca a importância de criar metas “dinâmicas” ou adaptáveis. “Elas funcionam como uma bússola, não como um trilho fixo”, explica. Isso significa definir a motivação principal (o “porquê”) e estar aberto a ajustar o “como” no caminho. “Mudar o plano não é falhar; é responder com sabedoria ao que a jornada mostra.”

O autocuidado como base, não como recompensa

Um dos erros mais comuns, segundo a especialista, é tratar o autocuidado como prêmio por produtividade. “O autocuidado é um requisito básico para funcionar. Quando é negligenciado, tudo fica mais difícil e frágil”, destaca.

Reverter essa lógica é colocar o bem-estar como alicerce. “Antes de qualquer meta, pergunte: ‘O que eu preciso manter em mim para seguir em frente?’. Descanso, pausas, relações saudáveis e atenção interna não competem com os objetivos; eles os tornam possíveis.”

Para encerrar esta fase e começar a seguinte com mais leveza, a profissional sugere um ritual simples: escrever duas cartas.

A primeira é para o ano que termina, agradecendo pelo que foi mantido, compreendido ou descoberto, “inclusive pelas experiências difíceis que trouxeram aprendizado”. A segunda carta é para você mesmo no ciclo que começa, com três intenções expressas em ações, como preservar, observar, adaptar.

“Não promessas, mas dedicar-se a uma atitude.”

“Ao terminar, guarde a segunda carta e descarte a primeira”, diz. Esse gesto simboliza algo importante: “O passado foi absorvido, não carregado. O novo ano começa mais tranquilo porque não precisa consertar falhas, apenas seguir adiante.”

Talvez o maior propósito para o tempo que se aproxima seja justamente este: aprender a ler nossa própria história não como um relatório de defeitos, mas como um diário de bordo – completo com rotas alteradas, tempestades enfrentadas e refúgios simples encontrados pelo caminho.

No fim, o que chamamos de “alcançar” pode ser, simplesmente, o ato de continuar se transformando.

Continua após a publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
25ºC
Máxima
28ºC
Mínima
22ºC
HOJE
20/01 - Ter
Amanhecer
05:16 am
Anoitecer
06:26 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
4.12 km/h

Média
21ºC
Máxima
21ºC
Mínima
21ºC
AMANHÃ
21/01 - Qua
Amanhecer
05:17 am
Anoitecer
06:26 pm
Chuva
92.5mm
Velocidade do Vento
5.38 km/h

IA e criatividade musical

Ulisses Mantovani

Leia também