No final do ano, muitas famílias enfrentam mudanças na rotina e um aumento natural das pressões dentro de casa. Cansaço maior dos adultos, compromissos acumulados e uma atmosfera emocional instável tornam-se parte do cotidiano. Para as crianças, essa situação costuma ser desconcertante.
Incapazes de identificar com precisão o que sentem, elas percebem a transformação no clima familiar. Para elas, pouco importa se a causa é o fechamento de um ciclo, excesso de trabalho ou o estresse típico da época. Conforme as desavenças entre os pais se intensificam, o lar perde estabilidade, o que acaba afetando o equilíbrio emocional dos pequenos.
O comportamento como forma de expressão
Segundo a psicopedagoga Paula Furtado, a criança não expressa verbalmente a tensão doméstica como um adulto. “Em situações de tensão em casa, a criança não consegue colocar isso em palavras, então seu corpo e sua conduta é que passam a comunicar”, explica.
Por isso, é comum aparecerem sinais como irritabilidade, choro sem motivo aparente e mudanças nos padrões de sono ou alimentação. Algumas crianças passam a demandar mais aconchego, enquanto outras manifestam regressões, como voltar a molhar a cama.
Há aquelas que ficam mais inquietas e também as que se retraem, tornando-se excessivamente quietas. “Algumas reclamam de dor de barriga ou de cabeça, e é comum reproduzirem nas brincadeiras as cenas de conflito que presenciam”, complementa Paula.
No contexto escolar, esse sofrimento muitas vezes se torna ainda mais visível. Para a neuropsicóloga Iara Mastine, especialista em desenvolvimento infantil, o ambiente da escola tende a ser o primeiro a revelar os efeitos dos conflitos familiares.
“Muitas vezes, a criança não manifesta nada em casa, mas passa a agir de modo diferente na escola”, observa. Ela pode se isolar, recusar brincadeiras, parecer mais dispersa ou emburrada. Em outros casos, ocorre o inverso.
“Algumas ficam mais agressivas, não conseguem expressar a raiva de forma adequada e acabam repetindo conflitos nas relações com os colegas.”
Emoções em estado de alerta
Quando o clima emocional da casa está abalado, as consequências atingem também o aprendizado. A neuropsicopedagoga explica que aprender exige mais do que atenção ao conteúdo. “Para aprender, a criança precisa sentir segurança, vínculo e presença. Ao viver situações tensas, ela entra em estado de alerta. Nesse estado, o cérebro se concentra em se defender, não em assimilar conhecimento.”
Iara afirma que esse estado de alerta impacta diretamente a organização emocional da criança. “Mudanças como irritabilidade ou introversão são comuns, e a criança pode inclusive achar que a culpa é dela”, adverte. Muitas vezes, esse sofrimento passa despercebido pelos adultos.
Principalmente no fim do ano, a sobrecarga emocional dos pais ressoa diretamente nos filhos. “Elas são extremamente sensíveis ao ritmo dos adultos”, acrescenta. Ao perceberem os pais tensos, sobrecarregados ou sempre apressados, elas reagem com maior agitação, problemas para dormir, birras e pouca tolerância à frustração.
Para Iara, o período de final de ano desorganiza estruturas fundamentais para a infância. “Com a rotina organizada, a criança consegue se programar melhor emocionalmente. No final do ano, essa estrutura se desestabiliza”, explica. Separações, reorganização de festas, férias, decisões financeiras e expectativas para o ano novo ampliam o estresse. “A quebra da rotina costuma elevar o estresse infantil.”
Conflitos não verbalizados também causam dano
Muitos acreditam que apenas discussões abertas afetam as crianças. No entanto, o impacto vai muito além das palavras. “O adulto percebe o conflito pela razão. A criança, pelo corpo. Mesmo sem entender o motivo da briga, ela sente que o vínculo está abalado”, diz Paula.
A neuropsicóloga infantil menciona que certas falas e atitudes vistas como “normais” pelos adultos podem ser profundamente dolorosas. “Quando se diz ‘você não faz nada direito’ ou ‘você dá muito trabalho’, estão sendo criados rótulos.” Essas expressões podem se transformar em traumas na vida adulta.
“A criança não aprende ‘apesar’ das emoções. Ela aprende por meio delas.”
Ações simples que protegem a saúde emocional
Desentendimentos fazem parte da convivência, mas ainda assim é possível amenizá-los e tornar o ambiente mais calmo e saudável. “Pequenas atitudes fazem uma grande diferença. Evitar discutir na frente da criança é crucial e, se acontecer, explicar depois, sem negar o que ela percebeu. Manter rituais de carinho, oferecer previsibilidade e afirmar claramente ‘Você não tem culpa do que está acontecendo’ são gestos essenciais”, orienta Paula.
Iara ressalta a importância de poupar a criança do conflito adulto. “Ela não deve ser mensageira, confidente, nem sentir que precisa escolher um lado.” Para ela, mesmo diante de discordâncias, é fundamental manter certa congruência entre os responsáveis: rotina, regras e formas de cuidado semelhantes.
Para ajudar a criança a recuperar a estabilidade emocional, “tudo o que restabelece ritmo e previsibilidade é benéfico”, afirma Paula.
Brincadeiras repetitivas, como modelar massinha, desenhar, montar e desmontar, ajudam a organizar o mundo interno. Movimento é outro aliado poderoso: correr, pular, dançar, equilibrar o corpo. E, principalmente, permitir o brincar simbólico. “É através da brincadeira que a criança elabora aquilo que vivencia”, conclui Paula.







