25 de janeiro de 2026
domingo, 25 de janeiro de 2026

O humor fortalece a vida

Com uma frequência maior do que gostaríamos, as notícias nos confrontam com uma realidade difícil de digerir. A cada ato arbitrário, o ânimo desaba, levando embora a leveza e o bom humor. Nessas horas, o lado risonho da vida pode parecer mera alienação, fuga ou até ingenuidade. Mas não é bem assim. Sustentar essa visão, especialmente em tempos difíceis, é como afirmar: “Apesar de tudo, ainda consigo ver beleza e leveza no cotidiano!”

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Pouca gente está tão sintonizada na frequência do riso quanto Cláudio Thebas. Por isso mesmo, ele foi o convidado do Clube de Leitura de Vida Simples em novembro, quando os assinantes puderam se aprofundar nas discussões da reportagem de capa “Leve a vida com humor”.

Educador, autor, palestrante e, acima de tudo, palhaço, Thebas compartilhou sua longa trajetória, marcada por humor, sensibilidade e conexão humana, explicando como a arte da palhaçaria se tornou o alicerce da sua vida.

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O menino que ia ao cinema com a mãe ver os filmes de “O Gordo e o Magro” sentia que algo ali o encantava. Mais tarde, o adolescente tímido usava o humor como escudo na escola. Para não chamar atenção, escondia-se atrás de piadas. Anos depois, ao assistir a uma apresentação do grupo Lume, dedicado à pesquisa da palhaçaria, ficou fascinado. “Comecei a investigar com eles o que seria aquilo. Eles abriram uma iniciação para palhaços e, a partir daí, nunca mais parei. Já se vão três décadas”, lembra.

Sobre sua carreira multifacetada, ele esclarece que a palhaçaria está presente em tudo o que faz: “Não sou um professor, sou um palhaço que educa; não sou um escritor, sou um palhaço que escreve”.

Com toda a autoridade, ele questiona a ideia comum de que palhaços vivem de piadas: “Palhaço não vive de piada. Palhaço vive de encontros”. Sabe quando encontramos alguém e, do nada, surge um sorriso espontâneo e genuíno? “É esse humor que considero o mais poderoso, o mais transformador. Porque, para mim, o humor é a chance de estar junto”.

O riso serve como um “respiro” para explorarmos profundezas

O diálogo daquela noite tratou da complexa relação entre leveza e profundidade, especialmente em um mundo caótico que nos puxa para a seriedade e, muitas vezes, para o desânimo. Ainda bem que o humor continua sendo um caminho para acessar um suporte essencial.

“O humor age como um balão de oxigênio. Dá fôlego para mergulharmos mais fundo quando a vida fica pesada”.

Segundo Thebas, é essa perspectiva que cria a intimidade necessária para sustentar diálogos difíceis. Ela também permite que emoções intensas, como tristeza e raiva, existam em sua plenitude.

“O riso em situações de dor extrema, como velórios ou hospitais, não apaga a tristeza, mas dá um alívio e amplia nossa capacidade de senti-la. Esse riso é o que permite respirar dentro da dor”. Sabe quando um objeto quebra e a gente remenda com fios dourados? “Acho que o riso é isso, é esse fio de ouro que costura as emoções, até as mais dolorosas”.

Para esse palhaço experiente, existiriam limites para o humor? Um participante perguntou. “O limite que estabeleço para mim é o amor pelo outro. Acredito que um bom riso é aquele em que todos riem felizes. Não gosto de rir ‘de’, prefiro rir ‘com’”.

Ele ressalta que o humor deve ser um “riso coletivo” – nunca um riso que oprima. “O limite do humor passa pelo discernimento de quem o pratica, pela consideração ao outro, por entender como o outro se posiciona no mundo, quem ele é”.

Um contraponto à “sociedade da performance”

Afinal, não se pode esquecer que o palhaço é a figura que expõe as fragilidades humanas. Nossas quedas e tropeços, mas também nossa capacidade de nos levantar e tentar de novo, dando espaço às nossas imperfeições.

Isso o torna um antídoto para a chamada “sociedade do desempenho”, que pressiona as pessoas a alcançarem padrões altíssimos. Quando, na verdade, por trás disso há uma enorme negação dos nossos limites.

“Ao não atingir esse nível de exigência, você sente culpa, vergonha e medo. Medo de ser demitido, vergonha de não ser bom o suficiente, culpa por não ter feito o esperado. Porém, no nosso picadeiro cotidiano, essa autoperformance é uma ilusão”.

Improvisação e luto pela ótica de um palhaço

O improviso, aprendido nas ruas “passando o chapéu”, é outra lição da palhaçaria aplicável à vida. Para Thebas, a existência tem poucas linearidades, e o palhaço aprende a lidar com a realidade imprevisível.

“O palhaço vai entendendo que imprevisto só existe no roteiro. Na vida não há imprevistos, existe apenas o que é, certo? É por isso que ele improvisa, porque precisa aprender a compor com a vida.”

Ao comentar sobre seu livro que aborda o luto, “De mãos dadas: Um palhaço e um psicólogo conversam sobre a coragem de viver o luto e as belezas que nascem da despedida (Paidós)”, escrito em parceria com o psicoterapeuta Alexandre Coimbra Amaral após a perda da mãe, Thebas compartilhou dois ensinamentos fundamentais:

  • “Conversar sobre a morte cria as memórias que sobrevivem à morte”.
  • “Luto você não deve passar sozinho. Luto é uma dor comunitária”.

Adultos precisam brincar mais

Para quem leva a vida com seriedade excessiva, Thebas propõe “criar situações intencionais onde se brinque com tarefas rotineiras”. Ele deu o exemplo do cesto de lixo do seu escritório, colocado de propósito longe para que ele precise parar e “arriscar” o acerto, gerando um instante lúdico.

“Se o cesto estiver ao meu lado, continuo trabalhando, pego o lixo, jogo, nem olho. Estou no modo automático. Se o coloco distante, sou obrigado a parar, olhar para o cesto, mirar, respirar e arriscar. Nesse momento, estou em plena conexão comigo mesmo. Não estou no futuro, nem no passado, nem na resolução de um problema. Estou, sim, tentando resolver um desafio lúdico. Como acertar o papel no lixo”, diverte-se. Esse tipo de atitude, segundo ele, “salva o adulto e resgata a criança interior”.

Falando em criança, ele também refletiu sobre seu trabalho em hospitais infantis, onde as crianças internadas criam uma realidade paralela com o palhaço, mesmo que a realidade do tratamento (injeções, soro) permaneça a mesma. “O maior aprendizado com as crianças é o da fé incondicional, de que algo melhor espera do outro lado da porta”.

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