20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Especial: A História do Theatro Carlos Gomes

Imagine só: você caminha que pelo centro de Vitória, vê aquela fachada clássica, pensa “mais um lugar que nunca vou entrar, está em reforma a tanto tempo”. Mas o palco inaugurado em janeiro de 1927, está prestes a reabrir suas cortinas, depois de muitos ensaios, reformas e até piadas de bastidor. Tanto se fala atualmente sobre sua reinauguração, mas, será que você conhece a história desse palco histórico?

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Tudo começa com um pequeno caos, um incêndio e muita fofoca política. O Teatro Melpômene, construído em 1895, no Largo da Conceição, lugar onde fica a hoje o Centro Cultural Triplex Vermelho. A casa, feita de madeira de pinho-de-riga, custou caro para a época: Cerca de 402 contos de réis, valor que hoje não dificilmente conseguimos calcular, mas, 1 conto de réis era igual a um milhão de rés. Então, na época, foi o suficiente pra causar um chilique coletivo nos moralistas da época.

Teatro Melpômene (Foto, Acervo José Tatagiba)
Teatro Melpômene (Foto: Acervo José Tatagiba)

Aliás, o nome, foi outra novela: o plano era chamá-lo de TDP — Theatro Dramático Público. Mas os críticos já se preparavam pra zoar a sigla com “Teatro De Pau”. Para evitar o “bullying linguístico”, mudaram para Melpômene, a musa grega da tragédia. Então, problema resolvido? Nem tanto. O novo nome virou “Theatro de Madeira” na boca dos opositores. O Melpômene era chique, viu? Tinha iluminação elétrica própria, telhas francesas, madeira sueca e ferro um bom ferro carioca (que durou muito tempo depois). Mas, como toda boa tragédia, teve um fim digno do seu nome: um princípio de incêndio, numa das cabines, durante exibição do filme “Ordens Secretas”, em outubro de 1924, botou o público pra correr e que causou grande pânico pela construção ser de madeira. A partir disso, o teatro foi interditado, vendido e demolido.

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Era uma vez um teatro à italiana. Em 1927, o Theatro Carlos Gomes, foi inaugurado. Entrando em cena, o arquiteto autodidata André Carloni (mais tarde, participou da construção da Santa Casa de Misericórdia, o Palácio da Cultura Sonia Cabral, o Clube do Saldanha, o Parque Moscoso e o prédio da FAFI), se inspirou no Teatro alla Scala de Milão para projetar o prédio usando restos do Melpômene. E foi definido como um marco representasse o período de expansão econômica e modificações sociais e culturais pelas quais o Município de Vitória estava passando. A estreia foi patriótica com a peça “Verde e Amarelo“, de José do Patrocínio e Ruy Pavão, estrelada pela Companhia de Revista Tam-Tam. Depois disso, com a crise do café em 1929 o teatro virou um verdadeiro camaleão: foi palco, cinema, motivo de ação judicial e, finalmente, patrimônio recuperado.

Theatro Carlos Gomes e Praça Costa Pereira em 1928 (Foto: Acervo AGV-ES e CAR-UFES)
Theatro Carlos Gomes e Praça Costa Pereira em 1928 (Foto: Acervo AGV-ES e CAR-UFES)

Em 1969, a apresentação da peça “Liberdade, Liberdade“, com o ator Paulo Autran, marcou o início do movimento para a restauração, onde o teatro ganhou um lustre no centro do teto e a pintura da cúpula pelo mineiro Homero Massena. E em 1970, renasceu com pompa e luz.

 

Em 1983, o edifício foi pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC) tombado. Ou seja, (para os jovens) foi declarado com valor histórico, cultural, arquitetônico e protegido por lei, onde impede que o prédio seja demolido ou alterado de forma a perder suas características originais.

Fachada do Theatro Carlos Gomes (Foto: Divulgação Secult)
Fachada do Theatro Carlos Gomes (Foto: Divulgação Secult)

Em 2004, a fachada foi toda reformada.
Desde sua reinauguração, passaram pelo palco ali Bibi Ferreira, com sua voz que parecia domar o ar, e Fernanda Montenegro, que transforma até o silêncio em diálogo. Foram noites em que o teatro parecia crescer alguns metros só pra caber tanto talento.

 

 

“Me marcou muito quando Fernanda Montenegro foi Fazer Uma conversa no Carlos Gomes, a cerca de uns 15 anos atras. Me marcou também a apresentação de ‘Tio Vania’ do Grupo Galpão, numa edição do festival de Vitória”.     – Max Goldner, ator

 

Mas as cortinas do Carlos Gomes não se limitaram aos nomes do teatro brasileiro. A casa também já virou embaixada musical internacional. Em 2009, a Chopin Chamber Orchestra, direto da Polônia, fez uma apresentação gratuita que lotou o salão e encantou até quem não sabia distinguir um concerto de um concerto. No ano seguinte, foi a vez da Mahler Chamber Orchestra, da Alemanha, que trouxe um ar de Viena para os trópicos como parte do projeto “Cultura na Escola”. E a maratona de passaportes culturais continuou: em 2012, a Camerata Bariloche, da Argentina, subiu ao palco da série “Concertos Internacionais” e fez o público, cerca de 470 pessoas, acreditaram que os Andes podiam ecoar em plena Praça Costa Pereira. Em 2017, a bailarina Stephanie Ricciardi, do Salzburg Ballet, da Áustria, transformou o palco em território flutuante.

Mas talvez o momento mais afetivo para os corações capixabas tenha sido em 2006, quando o teatro foi homenageado pelo Prêmio Taru. A ocasião ganhou trilha sonora de luxo com Turíbio Santos, que tocou pela primeira vez a peça “Seu Maurício”, homenageando o nosso grande músico Mauricio de Oliveira.

  “Me marcou um espetáculo que eu assisti ‘Dupla de Dois’ com Luis Carlos Tourino e Duda Guimarães, eu não trabalhava com teatro ainda, o Tourino, me pegou na plateia, me levou pro palco, para uma participação, acabei ficando até o final do espetáculo com eles em Cena.”     –  José Celso Cavalieri, Diretor

 

O teatro foi fechado em 2017, ano em que completou 90 anos de existência, devido a problemas estruturais e passou por um extenso processo de restauração. Algumas das últimas apresentações foram “Elekô – Sociedade de Mulheres Guerreiras” e o espetáculo “Silva Canta Marisa“. O cantor, Silva, foi um dos últimos a apresentar e será o responsável junto com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo no dia 22 de novembro, a partir das 16h, em frente ao teatro, na Praça Costa Pereira. O público poderá visitar o interior do teatro após a cerimônia para conhecer o resultado do restauro. Prepare o roteiro e o bom humor, finalmente será reaberto, então vamos lembrar da história, e acompanhar muita cultura: porque o Carlos Gomes reabre, e você também pode reabrir com ele. Ele nos lembra que a arte e a história não são museu frio, mas palco quente. O arquiteto Carloni talvez não tivesse redes sociais, mas hoje o palco vai ter “check-in” e stories.
Em resumo: o Theatro Carlos Gomes está vivo, não como sussurro de passado, mas como uma batida de futuro.

 

 

 

 

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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