Bar do Beco transforma crise em afeto e reafirma que o Centro de Vitória segue vivo, pulsante e unido
Se você ainda acha que Vitória dorme cedo, talvez esteja indo pra casa antes da sobremesa. Porque enquanto alguns decretam o fim do Centro, outros acendem luzes, esquentam panela e abrem garrafa. O Bar do Beco, na Rua Duque de Caxias, virou símbolo dessa resistência silenciosa que não grita um slogan, mas serve feijão, bebidas, samba, torresmo e pertencimento.
À frente do balcão está Luciano Comper, mais conhecido como Luciano Bigode. Comerciante, pai, sujeito de fala franca e coração aberto. Ele nunca planejou ter um bar. O ponto já existia há anos, pouco frequentado, quase invisível. Na pandemia, fechou. A rua esfriou. O movimento caiu. E o Centro ganhou mais um silêncio incômodo como ele mesmo diz.
Foi no improviso, chamando amigos e apostando na convivência, que o Bar do Beco nasceu. Sem fórmula mágica. Sem gourmetização. Apenas um boteco de gente pra gente. Em pouco tempo, virou ponto de encontro, conversa atravessada, risada compartilhada. “Vitória não acabou, não. Vitória tá viva. É só o pessoal vir pra cá”, resume Luciano, como quem fala o óbvio que muita gente esqueceu.
Ele faz questão de citar os vizinhos. Zilda, Galleti, Corbato, Seu Gelso, Kaiana’s, Caipora. Não como concorrência, mas como um tipo de rede. Urbanistas e pesquisadores da cultura urbana defendem exatamente isso. Centros históricos vivos dependem de circulação noturna, comércio ativo e relações de confiança. Onde tem gente, tem cidade. Onde tem afeto, tem permanência.

No Centro de Vitória, a união entre os bares vai muito além de dividir freguesia ou disputar mesa na calçada. Esses espaços funcionam como verdadeiras salas de estar da cidade, onde a vida urbana respira, conversa e se reconhece. Em ruas históricas como a Duque de Caxias, Sete de Setembro ou arredores do Parque Moscoso, o bar não é só ponto de consumo, é ponto de encontro.
Quando os bares e comerciantes caminham juntos, o Centro ganha circulação, segurança informal e afeto compartilhado. Essa união também sustenta a economia local. São lugares onde se descomprime o dia, se espanta a solidão e se exercita a saúde mental sem precisar de receita médica. Ali, gente de diferentes idades, classes e histórias se cruza, se escuta e se reconhece. É terapia em mesa de plástico, com café, cerveja ou refrigerante, cada um no seu tempo e no seu bolso.
No Centro de Vitória, os bares ainda cumprem outro papel essencial: são vitrines culturais. Viram palco improvisado, ponto de divulgação de eventos, espaço para música, arte, conversa política e celebração popular. Criam identidade, constroem memória e fazem com que as pessoas sintam orgulho de dizer “isso aqui é meu lugar”. No fim das contas, a união dos bares é a união da própria cidade. Quando eles resistem juntos, o Centro resiste também. E Vitória prova, copo a copo, que ainda sabe se encontrar.
Mas nem todo roteiro é leve. Na madrugada de 23 de julho de 2025, o Bar do Beco foi arrombado. Levaram TV, caixas de som, cigarros, comida da geladeira. Luciano chegou cedo, viu a porta aberta e achou que era só a fechadura. Não era. “Foi o dia do pesadelo”, lembra. Sentado na calçada, chorando, ele foi filmado. O vídeo circulou. Viralizou. Mas não pela tragédia em si. Viralizou pela resposta. Comentários se transformaram em presença física. Gente combinando de ir. Gente chamando mais gente. O amigo de Luciano (que ele citou como se fosse um filho) Wallace Aranha foi peça chave nesse movimento orgânico que não pediu dinheiro, pediu companhia.

“Ele me deu energia de desenho animado”, diz Luciano, rindo no meio da memória pesada. A ideia de vaquinha foi recusada. Se fosse pra arrecadar, que fosse para quem precisava mais. Hospital infantil, mães com crianças no colo. Solidariedade que não faz pose.
No dia seguinte, o bar encheu. Vieram clientes antigos, curiosos, jornalistas, vizinhos. O prejuízo virou combustível. O choro virou conversa. O medo virou mesa cheia.
“A gente desaba, mas depois levanta. O bar tá aberto. O feijão tá no fogo. O torresmo tá na chapa.” Não é slogan. É sobrevivência temperada com humanidade.
Eu pergunto qual é o “chamariz” do bar do beco, e, ele diz com bom humor: “É o Feijão Gordo! Mas, gostamos de váriar, o Wallace (Aranha) comeu a lingua e acabou a lingua do mercado!”.

“O Cliente tem que saber que ele vai ser bem recebido”. Luciano quer transformar a tristeza em alegria, por isso diz que colocou o samba para tocar aos finais de semana, pois, ele acredita que escutar um Samba e se divertir, alegra todos a semana toda. Ele comentou que os clientes são como amigos, como familia, e, que as vezes uns trazwem pressentes para eles.
No Centro de Vitória, às vezes, a cidade se reconstrói num copo americano.







