20 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026

“O Último Azul” chega à Netflix depois de fazer sucesso nos cinemas

A Netflix adiciona ao catálogo nesta terça-feira, 20, uma produção cinematográfica brasileira que foi um verdadeiro sucesso de bilheteria nos cinemas, desafiando a ideia de que o público não aprecia filmes nacionais. Trata-se de O Último Azul (2025), obra filmada na Amazônia pelo diretor pernambucano Gabriel Mascaro, com atuações de Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Adanilo.

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Em Porto Alegre, o filme ficou 12 semanas em cartaz na Cinemateca Paulo Amorim. Esse desempenho igualou o recorde de Flow: À Deriva (2024), animação letã que conquistou o Oscar em sua categoria, e terminou em segundo lugar no ranking de vendas de ingressos: foram 2,5 mil entradas, contra 3.225 espectadores de Flow.

Uma permanência tão longa nas telas é um fenômeno cada vez mais raro, praticamente restrito a superproduções de Hollywood, como Divertida Mente 2 (2024), que ficou em cartaz em Porto Alegre por quase cem dias, ou a filmes que se beneficiam intensamente do boca a boca, como é o caso de O Último Azul.

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Premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim

O Último Azul foi uma das três produções que colocaram o Brasil em destaque no cinema mundial ao conquistarem prêmios nos principais festivais internacionais em menos de nove meses.

Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles, venceu o Oscar de filme internacional, o Globo de Ouro de melhor atriz em drama (Fernanda Torres) e a Osella de melhor roteiro no Festival de Veneza.

O Agente Secreto (2025) ganhou duas categorias no Festival de Cannes: melhor direção, para Kleber Mendonça Filho, e melhor ator, para Wagner Moura.

O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro, trouxe do Festival de Berlim seu segundo prêmio mais importante, o Urso de Prata. A produção também recebeu o Prêmio do Júri Ecumênico, destinado a obras que abordam questões sociais e espirituais, e o Prêmio do Júri de Leitores do jornal Berliner Morgenpost.

Qual é a história de “O Último Azul”?

Vitrine Filmes / Divulgação

O Último Azul é o oitavo longa-metragem do diretor e roteirista pernambucano Gabriel Mascaro, criador de Boi Neon (2015) e Divino Amor (2019). Em sintonia com os debates contemporâneos sobre o envelhecimento populacional — uma tendência global — e sobre o etarismo (preconceito, discriminação ou estereótipos contra pessoas mais velhas), a trama se assemelha à do filme japonês Plano 75 (2022). Ambas as obras podem ser consideradas distópicas.

No filme dirigido por Chie Hayakawa, o governo japonês incentiva pessoas com 75 anos ou mais a participarem de um programa de eutanásia. Na obra de Gabriel Mascaro, o governo brasileiro reduz de 80 para 75 anos a idade que obriga os cidadãos a se mudarem para uma colônia habitacional. A proposta da lei é aliviar as famílias do “fardo” de cuidar de um idoso e abrir mais espaço para os jovens no mercado de trabalho. Trata-se de um exílio forçado que equivale a uma morte social.

A protagonista, Tereza, é interpretada por Denise Weinberg, atriz premiada no teatro por peças como Oração para um Pé de Chinelo e Testamento de Maria, e no cinema — ela ganhou o Grande Otelo, da Academia Brasileira, como coadjuvante por Salve Geral (2009) —, além de ter sido indicada ao Emmy Internacional em 2018 pela terceira temporada da série Psi.

No futuro próximo imaginado por Mascaro, a protagonista vive em uma cidade industrializada na Amazônia, onde trabalha em um frigorífico de jacarés. Tereza já tem 77 anos e, por isso, é convocada a deixar seu emprego e seguir para a Colônia.

No entanto, Tereza se recusa a desaparecer. Ela ainda tem muito para viver e sonhos a realizar. “Vão mandar no meu querer agora, é?”, questiona.

Assim, a protagonista inicia uma jornada pelos rios e afluentes da região, onde conhece personagens como o barqueiro Cadu, papel de Rodrigo Santoro, em uma atuação breve, porém marcante; o pintor Ludemir, vivido pelo ator manauara e indígena Adanilo; e Roberta, personagem da atriz cubana Miriam Socarrás, que cria uma conexão instantânea com Tereza e a ajuda a se libertar de uma vida comum para explodir como uma enchente amazônica.

Em sua trajetória, Tereza também descobre as propriedades místicas dos caracóis e a ferocidade de pequenos peixes que travam uma luta mortal para deleite ou desapontamento dos apostadores de um bar fluvial.

Sustentado pela fotografia de Guillermo Garza, que evita um olhar exotizante, pela montagem paciente de Omar Guzmán e Sebastián Sepúlveda e pela trilha sonora hipnótica de Memo Guerra, Gabriel Mascaro transforma O Último Azul em um “filme de estrada na água” — o road movie se torna um boat movie, conforme definido pela própria equipe. Tanto o diretor quanto sua protagonista estão menos interessados no destino final do que na própria jornada — que se assemelha mais a uma fábula melancólica do que a ficção científica ou aventura.

Nas palavras de Mascaro, O Último Azul demonstra que “nunca é tarde para encontrar um sentido na vida“.

— É um filme sobre uma mulher idosa que ainda tem desejos — declarou o cineasta no Festival de Gramado, onde O Último Azul foi exibido fora de competição, na noite de abertura oficial. — No cinema, é raro idosos serem retratados com pulsão de vida. Geralmente, o filme é sobre finitude ou nostalgia. Enquanto o mundo esconde o envelhecimento, surge Tereza para nos mostrar como envelhecer pode ser bonito.

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