Com o retorno das atividades no Legislativo, um dos principais desafios para o governo federal é fortalecer a relação com a bancada evangélica, um grupo de parlamentares com uma postura conservadora. Essa visão é compartilhada por pesquisadores, como o escritor André Ítalo, autor do livro “A bancada da Bíblia: uma história de conversões políticas”. A bancada evangélica, apesar de sua rigidez nas questões de costumes, historicamente mostrou-se favorável ao governo em assuntos econômicos, independentemente da ideologia política em questão.
Histórico da bancada evangélica
André Ítalo ressalta que a bancada já teve momentos de proximidade com diversos governos, incluindo aqueles de esquerda e de direita. Uma das razões para esse alinhamento pode ser a busca pela manutenção de privilégios, como isenção tributária para as igrejas. O pesquisador menciona a presença de pastores em altos escalões nos governos anteriores a Jair Bolsonaro, além do apoio evangélico a figuras como Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. A chegada de Bolsonaro, no entanto, mudou este panorama, pois ele foi o primeiro presidente identificado com a direita a estabelecer uma forte relação ideológica com a bancada.
Mudanças na representação
Com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, a bancada da Bíblia parece ter perdido sua posição governista, de acordo com a análise de Ítalo. Ele observa que o crescimento da bancada evangélica tem sido mais gradual, contrastando com o que ocorreu no final dos anos 1990 e em 2010. Atualmente, cerca de 90 a 100 deputados evangélicos estão na Câmara dos Deputados, representando menos de 20% do total, enquanto os evangélicos constituem aproximadamente 30% da população brasileira.
Diversidade e desafios internos
A bancada evangélica não é um bloco monolítico. Segundo o professor Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília, existem diversos segmentos com estratégias diferentes, sendo a Igreja Universal a mais organizada, através do Partido Republicanos, que atualmente preside a Câmara. Barreto aponta que, embora essa estratégia tenha sido eficaz, a bancada enfrenta as “dores do crescimento”, com muitos representantes buscando uma postura mais centrada, mas sendo pressionados por uma base cada vez mais conservadora.
O surgimento da bancada evangélica
Uma importante revelação do livro de André Ítalo é a história do primeiro pastor eleito deputado federal no Brasil, Levi Tavares, durante o mandato de 1967 a 1971. O termo “bancada evangélica” apareceu durante a Constituinte de 1986, quando as igrejas evangélicas perceberam a necessidade de participação política. Esse movimento foi impulsionado pelo temor de que o catolicismo pudesse recuperar uma posição dominante no país, especialmente em um contexto político onde setores da Igreja Católica se opunham à ditadura.
Diferença entre bancada e frente parlamentar
André Ítalo diferencia a “bancada da Bíblia” da Frente Parlamentar Evangélica, que é um grupo institucionalizado com 219 deputados e 26 senadores, representando diferentes partidos, incluindo alguns de centro e de esquerda. Para criar essa frente, é necessária a ajuda de deputados não evangélicos, uma vez que o número de deputados evangélicos é insuficiente para atingir a quantidade mínima de assinaturas exigidas.
O papel da frente parlamentar
Atualmente, a frente conta com um grupo de assessores que se reúne semanalmente para mapear pautas sensíveis para os evangélicos discutidas nas comissões da Câmara. O coordenador da frente é o deputado Silas Câmara, do Partido Republicanos. A busca por um diálogo efetivo e a adaptação a novas realidades políticas serão cruciais para a continuidade da influência da bancada evangélica no cenário legislativo brasileiro.






