A chamada telefônica pega Fernando Vicente em pé diante do cavalete. Este pintor, reconhecido ilustrador de livros, discos e imprensa, colabora há mais de duas décadas com o EL PAÍS. Seus desenhos acompanham as tribunas de Irene Vallejo, como antes as de Mario Vargas Llosa. Ele tem também mais de 80 capas de Babelia. Em seu último trabalho para a seção de Opinião, publicado no último domingo, retratou Charles Darwin com um caça-mariposas. Esta ilustração motivou a reclamação de um leitor, David García. “Foi gerada por IA [inteligência artificial]”, afirma em um e-mail, no qual também pergunta “se o EL PAÍS sabia e, caso sim, por que não foi incluída uma atribuição compartilhada de responsabilidade”.
Do outro lado do celular, Fernando Vicente nega com firmeza e certa frustração por se duvidar de seu trabalho. “Sou um clássico e nem sei usar isso”, afirma. Além disso, lembra que a ilustração não requer a máxima precisão, por isso admite que às vezes lhe saem rabiscos. “Estará mal desenhada”, diz, referindo-se ao retrato de Darwin.
Se tivesse utilizado IA, também não seria um problema. O Livro de Estilo já possui um protocolo de uso dessa tecnologia, com o objetivo de evitar a manipulação informativa. Este se baseia em dois princípios: que o conteúdo gerado com IA deve sempre ser supervisionado por um redator, que será responsável por ele, e que o jornal será transparente em comunicar o uso de IA.
Além disso, em consonância com a proibição de qualquer manipulação da fotografia por seu valor notarial, o manual acrescenta: “Não será utilizada imagens, áudios ou quaisquer outros conteúdos sintéticos gerados por inteligência artificial que possam ser confundidos com a realidade, que possam induzir ao erro, desinformar ou violar a privacidade e o direito à própria imagem”. Isso exclui as ilustrações, que não são consideradas informação, mas peças artísticas de opinião que respondem ao critério de seus autores.
“Os ilustradores que colaboram com o jornal podem usar a IA como ferramenta, sem problema, desde que avisem sobre isso”, confirma Diego Areso, diretor de Arte do periódico. “Se o fizerem, os elementos criados por inteligência artificial devem ser um ingrediente secundário, submetido ao conceito geral da ilustração e que não diminua a qualidade do material publicado. Ou seja, não podemos publicar mãos com seis dedos”.
O que não se faz, como critério geral, acrescenta, é publicar ilustrações criadas completamente por IA generativa, a menos que acompanhem artigos sobre isso. É uma medida de prudência, porque ainda há muita incerteza sobre alguns aspectos dessa tecnologia. “Não está claro com quais imagens esses motores de geração foram treinados”, explica o diretor de Arte. “E, desde já, me preocupa o efeito que pode ter o uso da IA no já precário mundo da ilustração editorial”.
Fernando Vicente também comenta por já ter visto como a inteligência artificial faz “coisas alucinantes”. “Todos os ilustradores estamos tremendo diante do que vem”, afirma, embora esteja ciente de que isso afeta mais os jovens criadores, porque ele já tem uma carreira consolidada. O setor está mudando tanto, acrescenta, que em dois dos três contratos para ilustrar livros que lhe foram oferecidos em janeiro já incluem especificações para não usar IA.
Esclarecida a dúvida, os entrevistados sublinham que a inquietação do leitor é muito pertinente. Os leitores souberam pelo periódico que sua empresa editora, PRISA Media, chegou a dois acordos com empresas de IA, OpenAI (dona do ChatGPT) e Perplexity, e é natural que, sem mais explicações, isso suscite dúvidas sobre como é aplicado no EL PAÍS.
Na verdade, esses acordos vão permitir que ambas as empresas treinem seus motores de busca conversacional no uso do espanhol com os textos das publicações da PRISA. Com a primeira delas também foi desenvolvido um assistente piloto de consulta, que gera modelos de linguagem de IA generativa de conteúdos baseados na hemeroteca. Nos testes, que durarão até o final do mês, participam 5.000 assinantes.
Toda a equipe tem ainda o dever de informar à empresa editora sobre as ferramentas de IA que usar em seu cargo, com o objetivo de proteger a segurança da infraestrutura digital.
Mas falta informar os leitores que existe um protocolo de uso de IA, de cumprimento obrigatório para a Redação com anexo do Livro de Estilo. O manual implica um compromisso ético com os leitores e o mais transparente é comunicar-lhes qualquer mudança, algo que até agora não foi feito.






