O Telescópio Espacial James Webb capturou indícios de um buraco negro supermassivo que escapou de sua galáxia, deslocando-se a 3,6 milhões de quilômetros por hora. A evidência mais notável é uma onda de choque na frente de seu movimento, uma assinatura característica que surge quando um corpo de grande massa atravessa o gás circundante em altíssima velocidade.

Além disso, o objeto parece ter gerado uma trilha de formação estelar com 200.000 anos-luz de comprimento. Essa estrutura ajuda a reconstruir sua trajetória e dimensiona a magnitude do evento, já que o rastro se estende por uma distância equivalente ao dobro do diâmetro da Via Láctea.
As informações foram divulgadas no repositório Arxiv em 3 de dezembro e ainda não passaram por revisão por pares. No entanto, as medições em diferentes comprimentos de onda se complementam e fortalecem a hipótese de um corpo supermassivo que se deslocou de seu local habitual, o centro galáctico.
Uma linha quase imperceptível observada em 2023 se transformou em evidência crucial
O primeiro sinal surgiu em 2023, quando uma linha muito fraca foi identificada em imagens de arquivo do Telescópio Espacial Hubble. Sua forma linear e incomum motivou novas observações para distinguir um fenômeno real de um possível defeito no instrumento.
Observações subsequentes com o Observatório Keck, no Havaí, confirmaram que a estrutura não era um artefato. Os dados apoiaram a interpretação de que se tratava de um rastro ligado a estrelas jovens, indicando que algo passou pela região e modificou o gás ao longo do caminho.
Esse aspecto reforça a solidez da evidência, pois o rastro não se parece com uma emissão pontual. Ele sugere um processo contínuo, com efeitos físicos distribuídos por uma vasta área do espaço, o que é consistente com a passagem de um objeto compacto e de massa extraordinária.
Com massa de 20 milhões de sóis, o objeto integra a elite dos supermassivos
As estimativas apontam para uma massa de 20 milhões de sóis, um valor típico dos buracos negros supermassivos. Em galáxias de grande porte, esses corpos costumam permanecer no núcleo e influenciar a dinâmica do sistema, o que torna a ideia de um deslocamento ainda mais fascinante.
A imagem do Hubble também captura um período em que o universo tinha cerca de metade de sua idade atual, estimada em 13.800 milhões de anos. Esse contexto favorece cenários de interações intensas entre galáxias, com encontros capazes de reorganizar núcleos e gerar eventos gravitacionais extremos.
Quando um corpo dessa magnitude se move, o gás tende a ser comprimido e aquecido, criando condições propícias para a formação de estrelas ao longo do caminho. Isso permite relacionar a massa calculada com a presença da trilha, sem precisar de explicações além do que foi observado.

O instrumento de infravermelho médio do JWST revelou a onda de choque, também descrita como um arco de choque, na borda frontal do deslocamento. O sinal se assemelha às ondas geradas quando um objeto atravessa um meio, sendo que, neste caso, o meio é o gás no espaço profundo.
A observação indica material composto por hidrogênio e oxigênio, que é empurrado e reorganizado à frente do objeto. Como os buracos negros são difíceis de observar diretamente, esse tipo de assinatura indireta se torna valiosa para detectar sua presença e movimento.
A robustez da descoberta está na combinação de evidências: a mesma região exibe tanto a trilha estelar já associada ao fenômeno quanto o choque frontal com maior clareza. Isso forma um conjunto mais sólido para interpretar o sistema como um candidato genuíno a buraco negro em fuga.
Interações entre dois ou três buracos negros podem justificar a ejeção
Para que um buraco negro supermassivo seja ejetado de sua galáxia, o mecanismo mais provável envolve encontros gravitacionais raros. A aproximação extrema entre pelo menos dois buracos negros pode expulsar um deles, em um efeito similar a um estilingue em escala cósmica.
A interpretação considera a interação de no mínimo dois e possivelmente três buracos negros, cada um com massa de pelo menos 10 milhões de sóis. Um encontro dessa natureza tende a ser violento e capaz de alterar profundamente o núcleo galáctico envolvido.
Esse tipo de processo tem implicações mais amplas: se ejeções ocorrem, algumas galáxias podem perder seu buraco negro central, enquanto outros objetos passam a vagar pelo espaço, deixando rastros que apenas instrumentos muito sensíveis conseguem detectar.







