24 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026

Batidas na porta da frente, é o tempo…

“Batidas na porta da frente, é o tempo…” – e assim Aldir Blanc começa uma das suas composições mais brilhantes. Vira e mexe essa frase ainda surge no meu ouvido, como quem avisa algo. Eu sinto que o tempo está na minha porta, mas não sei se é a hora de atendê-lo. Se é que eu devo.

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O tempo é um desses conceitos que, quanto mais tentamos definir, menos entendemos. De um lado, parece o velhinho sábio com sua ampulheta, nos dizendo que estamos atrasados. De outro, é como aquele amigo debochado que insiste em mostrar como tudo que você planejou pode ser jogado na gaveta da irrelevância.

Podemos representá-lo como Cronos, que, na mitologia grega, é o titã ligado ao tempo, aquele que não dá trégua e só segue em frente, sem piedade. Geralmente, ele é retratado como um velho segurando uma foice, simbolizando sua conexão com o tempo e a ideia de colher o que foi plantado. E também como Kairós, o deus do “tempo certo”, aquele momento perfeito e cheio de significado que nada tem a ver com os minutos do relógio de Cronos. Ele representa as oportunidades que surgem e transformam a vida. Normalmente, Kairós é retratado como um jovem com asas nos pés e nos ombros, além de um tufo de cabelo na testa – porque ele só pode ser “capturado” quando está passando.

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(…) Mas fico sem jeito, calado. Ele ri,
Ele zomba do quanto eu chorei.
Porque sabe passar,
E eu não sei…

Quantas vezes me pego pensando: já fiz tanto para minha idade, mas ao mesmo tempo parece que não fiz nada comparado ao que quero e ao que sonho. O que é engraçado, porque, no fim, o tempo não é uma régua e, pra falar bem a verdade, ele nem existe.

Sim, é isso mesmo: ele não existe. Quer dizer, existe, mas é moldável, flexível, quase uma utopia. Hoje, o que é celebrado, amanhã será esquecido. A efemeridade reina, e aí me pergunto: quero estar a tempo de quê, exatamente? O tempo deveria ser apenas uma desculpa para inventarmos quem somos, não uma obrigação sufocante.

(…) Respondo que ele aprisiona,
Eu liberto…

A questão é: se o tempo passar, deixe ir. Talvez tentar acompanhá-lo pode ser um verdadeiro tiro no pé. Provavelmente, lá na frente, você o alcançará. A vida é sua, é você quem faz a linha do tempo. Se a vida é só sua, você está atrasada para o quê, exatamente?

(…) E o tempo se rói
Com inveja de mim.
Me vigia, querendo aprender…

E então, de repente, vejo que a batida na porta não é o tempo que cobra, mas o tempo que convida. Convida para abrir a porta e deixar pra lá a preocupação com o cronômetro. Afinal, não é sobre correr para não chegar atrasado. É sobre criar o próprio caminho, dançando no ritmo que faz sentido.

Acredito que o cheque-mate do tempo seja se materializar no rosto daqueles que amamos. Ali ele se faz cruel e verdadeiro. Não dá para ignorar. Portanto, podemos acompanhar esse processo com a leveza de quem sabe que ele vai passar, mas não aprisionar.

Sejamos Kairós, não Cronos.

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Rafaela Maia
Rafaela Maia
Jornalista, leitora e escritora focada em vivências do dia a dia

2 COMENTÁRIOS

  1. Que texto maravilhoso! Cada vez que vc escreve, parece que abre uma janelinha na cabeça e no coração da gente. Seus textos fazem a gente pensar, sentir, respirar mais fundo. É como se vc colocasse em palavras aquilo que a gente vive, mas nem sempre sabe explicar. De verdade, é sempre especial acompanhar o que vc escreve!

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